O mais novo trabalho do professor Francisco Gomes de Matos, da Universidade Federal de Pernambuco, começa com um convite aos leitores: "Sejamos comunicativamente prudentes, piedosos e pacíficos. Usemos uma boa linguagem. Comuniquemos bem, comunicando-nos para o bem.". O convite é sedutor, e o autor faz ao longo de seu livro a demonstração de que é possível utilizar a linguagem de um modo não-beligerante, positivo e animador. A surpresa talvez esteja em ver como pode ser simples mudar os hábitos lingüísticos que nos encaminham no dia-a-dia para a prática discriminatória, o isolamento auditivo e a negatividade conversacional.
O livro se divide em cinco capítulos. No primeiro, "Comunicação para o bem", Gomes de Matos apresenta em textos curtos e objetivos considerações sobre a construção de amizades, estratégias da conversação, humanização e polidez, argumentação planejada, citação positiva e sobre o papel da escola na prevenção das ofensas lingüísticas. O capítulo chama a atenção para os procedimentos viciosos que nos são transmitidos e reforça os valores semânticos das palavras "próximo" e "pessoa", muito mais positivas do que "o outro". O segundo capítulo trata de uma questão para a qual o autor tem dedicado boa parte de suas pesquisas, que é das mais relevantes nos estudos lingüísticos brasileiros e inclui uma discreta mas eficiente participação na última edição revista do Dicionário de lingüística e gramática, de Joaquim Mattoso Câmara Jr., em 1977. "Direitos e deveres" é - ou deveria ser - uma espécie de manual de defesa do falante e do ouvinte, pregado nas paredes das salas de reuniões, de aula, auditórios, agências bancárias, repartições públicas e empresas privadas.
É preciso fazer alguma coisa, concluímos, quando Gomes de Matos pergunta se ao aluno está assegurado, por exemplo, o direito de "receber orientação sobre a variação nos usos do Português falado e escrito, mediante escalas de grau de formalidade/informalidade". Na escola ainda convivemos com uma situação em que o aluno não aprende a fazer opções lexicais, não distingue linguagem conotativa e denotativa, não recebe orientação quanto ao uso criativo/expressivo de gírias, de paráfrases. Por isso, não basta ficarmos lamentando as estatísticas sobre o fracasso escolar, a retenção, a repetência, a evasão. Nossa responsabilidade social depende de uma consciência cultural (e vice-versa), o que inclui uma revi-são nas estratégias de formação de leitores e uma revalorização do profissional da imprensa.
"Cidadania, educação e trabalho" é o título do terceiro capítulo, que aborda a humanização pedagógica, a importância de uma escolha consciente do livro didático e as formas construtivas de correção das redações escolares. Ética, meio ambiente, intercomunicação e linguagem visual, temas que revelam a sensibilidade de quem lida com o ser humano e com ele se preocupa por se sentir responsável pelas conseqüências das atitudes tomadas no contato docente. Isso nos leva aos dois últimos capítulos, "Cristianismo e paz" e "Percepções humanizadoras", que apontam para mais algumas reavaliações nos hábitos lingüísticos: a referência a pessoas portadoras de distúrbios mentais, a maneira de lidar com a fala dos adolescentes, as expectativas em torno do sistema policial e de sua linguagem.
Enfim, temos à disposição um dos raros livros brasileiros da área dos Direitos Lingüísticos e de Lingüística da Paz, da qual Francisco Gomes de Matos é um dos pioneiros no Brasil. Sabemos que a expressão lingüística desprovida de preconceito não garante, por si só, a extinção do preconceito. Alguém poderá dizer que estamos diante de um manual sobre a linguagem "politicamente correta" - e se isso não for dito com intuito pejorativo teremos de concordar. Mas a expressão "comunicar para o bem" nos diz muito mais do que a outra, já desgastada e ironizada. Até porque a língua é apenas uma cortina. Que ela se abra para a paz e para a bondade!"
Comunicar para o bem, por Francisco Gomes de Matos. São Paulo, Editora Ave-Maria, São Paulo, 2002.
Resenha: Claudio Cezar Henriques
Professor Titular de Língua Portuguesa da UERJ
Revista Cultura Vozes, Seção Livros e Teses, maio/junho de 2002.
Seção Livros e Teses.